Por Luiz André Guazzelli (@tucoguazza)
Fotos: Ricardo Kafka (@kafkafotografka)
Em 14 de dezembro de 2025, no Parque Central em Santo André, aconteceu a estreia nos palcos do projeto musical do vocalista e multi-instrumentista, de 23 anos, Iccaro Bass Cavalera. O primeiro show oficial do artista e da sua competente banda formada por Art Relli, guitarrista e violinista; Vini Diaferia, baixista; e Thiago Fernandes bateria, teve como foco a apresentação na íntegra do primeiro álbum lançado pelo artista em abril deste ano, o conceitual “The Tales of Gaspar & Allison”. Além das 9 faixas do álbum, foram apresentadas pequenas inserções de “Lovesong” do The Cure e “Wicked Game” de Chris Isaak, além de uma maravilhosa versão de “I Stay Away”, do Alice in Chains, no bis.
Mesmo sendo um “Release Show” a banda mostrou total coesão no palco, tanto na parte musical quanto na parte visual, apostando em algumas encenações que explicam a história do álbum. Em nenhum momento se deixou transparecer que esta era a primeira apresentação do grupo, e se houve algum nervosismo pela estreia com público, foi bastante imperceptível, fruto de muito ensaio e dedicação ao projeto. “O show foi ótimo! Claro que houve um nervosismo, mas ensaiamos muito, somos muito perfeccionistas e queríamos que esse show desse certo e funcionasse realmente como uma porta de entrada para a banda, um recado de que estamos por aqui”, afirmou Iccaro Bass Cavalera. Para o baterista Thiago Fernandes, o nervosismo aconteceu naturalmente e junto com muita adrenalina: “o álbum é muito intenso, mas estávamos muito empenhados, trabalhamos muito e tivemos todo o cuidado para apresentar essa obra”. Já para o baixista Vini Diaferia a ansiedade foi grande até o dia chegar, mas a preocupação maior era realmente fazer uma apresentação boa para o público e que todos gostassem do show.

Apesar do álbum ter sido inteiramente concebido, produzido, gravado e ter todos seus instrumentos tocados por Iccaro, os músicos conseguiram colocar sua identidade nas composições, elevando o nível das 9 faixas do debut, vide, por exemplo, as bem encaixadas inserções de violino em algumas canções. “Quando o Iccaro conversou com a gente ele disse que o álbum estava pronto, mas que fazia questão de que cada um colocasse suas influências, sua essência nas faixas e que cada um imprimisse um pouco da sua cara nas composições”, afirmou Thiago. O guitarrista e violinista Art Relli concorda e acrescenta: “A primeira coisa que eu falei para o Iccaro quando ele me convidou para a banda foi que eu não era um músico de estúdio, de sessão, que eu era “sujo, todo torto”, do ao vivo, e era isso mesmo que ele queria para a banda e isso me deu toda a liberdade para colocar uma coisa aqui ou ali como na música “Sinner/God” (terceira faixa do disco). Isso tudo dá vida às músicas, afinal a música tem isso do intangível”.
A amizade entre os integrantes da banda e a forma semelhante de pensar e ouvir música demonstra bem o entrosamento da banda e condiz totalmente com a escolha dos músicos. “Quando o Iccaro conversou conosco ele falou que estava entregando o disco dele para nós e que queria focar seriamente no projeto e que contava com a gente por que sabia que tínhamos a mesma paixão, gosto musicais parecidos e que queria uma coisa livre, natural, para que agregássemos mesmo”, salienta Vini.

Para Iccaro, a escolha dos músicos que iriam seguir com ele no projeto iria muito mais além do quão bons esses músicos seriam: “A minha questão era que eu queria pessoas que gosto no palco comigo. Eu poderia ter chamado o baterista X, o baixista Y entregar as partituras e falar aprende a música aí e vamos tocar tal dia em tal lugar, mas não, eu queria me divertir tocando e com pessoas que eu gosto e confio. Realmente nossos gostos musicais batem muito e isso também ajuda”.
O passo inicial foi dado com sucesso. O disco é incrível, o show é ótimo e a banda está unida e afinada. O futuro parece muito promissor e a vontade de tocar transparece nos rostos de cada músico. “A gente precisava ter um show para lançar a banda e o álbum. Isso foi feito, agora vamos intensificar os shows e na sequência trabalhar juntos em novas músicas no estúdio, colocando a pitada de cada um nessas composições, juntando todas as nossas influências que são as mais variadas possíveis”, afirma Iccaro. “Estávamos ansiosos para estrear esse show e seguir em frente, afinal nós temos muitas ideias, algumas nem cabem nesse repertório e queremos gastar essas ideias novas em futuras composições”, complementa Vini. Thiago e Art concordam e acreditam que “ainda devem girar bastante esse show que foi exaustivamente trabalhado e pensado e agora além de lapidar esse show poder colocar novas ideias em prática e acrescentá-las nas futuras apresentações”.
Iccaro Bass Cavalera e Banda sejam muito benvindos!!! A cena musical brasileira e mundial agradece.

O Conceito do Álbum
Filho do fundador e ex-baterista da banda Sepultura, Iggor Cavalera e da empresária e produtora musical Monika Bass Cavalera; Iccaro Bass Cavalera nasceu imerso na cena musical. Autodidata, Iccaro aprendeu a tocar diversos instrumentos sozinho pela internet e foi a paixão pela música que o motivou a desenvolver seus dotes musicais e deixar fluir o talento que sempre correu em suas veias.
Começou a compor desde muito jovem sempre no piano e na guitarra. Fez testes aqui e acolá, gravou e mixou uma coisa ou outra até que uma música em especial chamada “Allison” despertou nele a ideia de que tinha uma história surgindo. Ao transformar essa letra em música começou a ganhar vida a obra “The Tales of Gaspar & Allison”.

Lançado em abril de 2025, “The Tales of Gaspar & Allison” foi gravado, produzido e mixado dentro do quarto do artista e segundo o autor, “tudo se passa numa cidade ferroviária dos anos de 1800 e conta a história de Gaspar, um coronel depressivo, melancólico, extremamente triste, que odeia sua vida apesar de ter tudo, e de Allison que chega na cidade como uma salvação para a tristeza dele, mas com o decorrer do álbum a gente vai percebendo que essa história de amor não é tão feliz quanto parece”. Importante citar que a inspiração para essa história surgiu após uma visita de Iccaro ao distrito de Paranapiacaba em Santo André-SP.
Musicalmente o álbum é bastante eclético e criativo, misturando momentos introspectivos e melancólicos com passagens atmosféricas e outros momentos mais agressivos e pesados, com vocais que alternam o suave e os gritos e refletem os sentimentos dos personagens, amor, angústias, paixão e raiva.
Muito difícil de rotular (ainda bem!) o trabalho, mas tem um pouco de tudo, rock, pop, dark, folk, metal em suas mais diferentes vertentes. Consegue contrastar guitarras pesadas, com outros instrumentos como bandolim, berimbau, teclados e sintetizadores, tudo de forma bastante orgânica. As influências de Iccaro Bass Cavalera para a composição do álbum vão desde Nick Cave e David Bowie até bandas de rock progressivo e metal extremo.
“The Tales of Gaspar & Allison” permite várias interpretações, e segundo o autor nada é errado: “se sua interpretação for diferente do que eu escrevei está tudo certo, essa é a beleza da arte”. A faixa de abertura, “Greetings, My Doom” serve com uma apresentação do personagem Gaspar, situando o ouvinte na cidade, e mostrando o vazio que o personagem sente, sua fuga e a sensação que alguém está para chegar. Destaque para a introdução com um riff de bandolim invertido que emula o trilho de um trem. Na sequência “Allison” apresenta a personagem, envolta em uma atmosfera dark. Seria ela uma morta-viva?
Extremamente bem construída, a terceira faixa, “Sinner/God” tem a participação mais do que especial do baterista Iggor Cavalera e explica a relação entre os dois protagonistas. Gaspar se considera um Deus, o “dono do pedaço”, mas também um pecador e que Allison pode trazer um alívio a ele, mas fica a dúvida se ele realmente sabe quem ela é. A faixa é certamente um dos destaques do disco.
“Visions” é a canção de amor do álbum, e talvez a preferida deste jornalista. Linda! Iccaro destaca a frase “Nunca foi a sua culpa, mas você tinha muita culpa”, e explica: “segundo Gaspar não era culpa dela ele ter se apaixonado por ela, mas, sim foi culpa dela ter feito o que fez com ele”. Já “Maze” explora o labirinto aonde o personagem de Gaspar se perdeu. Tudo fica mais nebuloso. A letra é mais rebuscada e brinca com o abstrato. Fica claro que Gaspar percebeu as duas faces de Allison (Jekyll & Hyde) e que as coisas não estão boas para ele.
As duas faixas seguintes, “The Malediction” (desafio qualquer ouvinte após a canção não sair gritando por aí “Get Away diversas vezes)e “Eternal Damnation” são as mais viscerais e pesadas do álbum e retratam a agonia do coronel agora amaldiçoado. “Em “Malediction” o ritual foi feito, e é retratado no início pelo berimbau, Gaspar não consegue mais fugir e apesar de não querer ir embora ele sabe que o fim está próximo e acaba até aceitando. Por sua vez, “Eternal Damnation” é a destruição da alma de Gaspar, não há mais retorno. Ele tem o discernimento de que morreu e se submete à danação eterna”.
“Soma” é o caminho de Gaspar até a eternidade e marca a melancólica despedida do personagem que pede a libertação mesmo sabendo que nunca foi uma boa pessoa, enquanto a instrumental “Decay” fecha o álbum de forma sublime; é uma espécie de marcha fúnebre e associa sons da chuva a um extremamente bem colocado acordeão. A chamada calmaria após a tempestade.
Além da parte musical é necessário destacar a linda capa do álbum desenvolvida por Iccaro Bass Cavalera em conjunto com a artista Rafa Milani (@milani.rafa.art) e que de forma brilhante promove uma dicotomia entre as letras em inglês e o conceito agressivo e melancólico do álbum com a linguagem popular e folclórica do Nordeste brasileiro retratada em xilogravuras pelo Cordel. “A capa representa um Cordel Dark. Queria realmente propor essa coisa da pessoa ver uma capa de cordel e contrastar com a sonoridade que o disco tem, por exemplo, bateria com bumbo duplo e vocais guturais, mas que tem baião, berimbau também. Essa era a ideia e que a Rafa executou brilhantemente na capa”, explica Iccaro. Além disso, Rafa também fez as imagens do clipe para a faixa de abertura “Greetings, My Doom”.
“The Tales of Gaspar & Allison” é uma obra complexa, mas além da sua força musical deixa claro que a história pode galgar outros espaços. Tem potencial enorme para a literatura e principalmente para dar origem a filmes ou minisséries. Sem contar que os personagens podem render obras paralelas, e a história ser retomada explicando suas origens, por exemplo. Segundo Iccaro, existe sim a vontade de expandir a história para além da parte sonora, e livros e audiovisual estão no “cardápio”, mas tudo ao seu tempo: “da mesma maneira que ensaiamos quase um ano para fazer o primeiro show, acho que esse projeto precisa ser bem pensado, com muito tempo de produção e aperfeiçoamento. Vai rolar no seu tempo, sei do potencial visual que o álbum tem, mas não tenho pressa nenhuma, será feito do jeito certo!”.
Enquanto esperamos por mais shows e a expansão desse universo, só nos resta ouvir a história de Gaspar e Allison no volume alto e curtir. O álbum pode ser ouvido em todas as plataformas musicais e se quiser mais detalhes sobre o artista não perca a entrevista de Iccaro Bass Cavalera no programa PapoSound (@paposoundoriginal) da DJ Kelly Silva (@deejaykellysilva), no YouTube:
Youtube – www.youtube.com/@iccaromusic
Spotify – https://spoti.fi/42tWJjr
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Other – https://linktr.ee/iccaromusic
PapoSound com Icccaro Bass Cavalera: https://www.youtube.com/watch?v=hEqXxnNfP7I
Instagram:
Iccaro Bass Cavalera – @iccarocavalera
Art Relli – @art_relli
Vini Diaferia – @vini.diaferia
Thiago Fernandes – @thiago89fernandes




















